'Um jantar brasileiro'. Gravura de Jean-Baptiste Debret, 1827 (Google)

Somos todos racistas

Por: Márcia Pessoa – Educadora de Essencialidades

Dá pra contar nos dedos das mãos a quantidade de pessoas negras que integraram e ainda integram a comunidade Tempo de Ser.

Se você que participou dos movimentos originários desta comunidade realizar um exercício de memória poderá se certificar de que o número é bastante diminuto na comparação com as pessoas brancas…

Esta minha reflexão foi estimulada não só pela repercussão da mídia tradicional e das redes sociais quanto ao ato de violência policial e morte de um homem negro ocorrida nos EUA, mas também pela natureza das muitas postagens, dentre elas, a de educadores de essencialidades, que expressam uma visão de mundo e das relações humanas distanciadas dos fundamentos teóricos, laboratoriais e práticos da Educação de Essencialidades.        

Os muitos anos de estudos desenvolvidos no Sistema Tempo de Ser demonstraram que o maior obstáculo ao processo de autoaprendizagem é a dificuldade do aprendiz em admitir sua inconsciência.

Todavia, somente tal admissão permite a consideração de que, na verdade, somos conduzidos, em maior proporção, pelas forças constitutivas da nossa personalidade, sobre as quais temos pouca ou nenhuma consciência, vez que desde o nascimento somos inteiramente submetidos ao conteúdo do inconsciente coletivo, atualizado pelos contextos sociais e nele conceitos, valores e crenças que estruturam nossos padrões de comportamento. Tudo e todos já estavam aqui quando nascemos.

Tivemos 300 anos de um regime escravocrata, sendo o Brasil o último país das Américas a abolir formalmente a escravidão das pessoas negras, fato que ocorreu em 1888. Escravizar significa reduzir gente preta à condição de animal irracional ou coisa, ou seja, é entender que gente preta não é sujeito de direitos e de experiências, isto é, não é um ser capaz de experimentar aquilo que lhe acontece. O nome disto é desumanização.

O sujeito branco que escraviza, ou seja, que limita e controla a liberdade de gente preta e lhe inflige a condição de animalidade e inferioridade e mesmo a posição de subalternidade, acaba ele também ocupando o lugar da barbárie e igualmente, se desumaniza.     

Mais de século depois da escravidão e todas as questões raciais que dela derivam ficaram e ainda permanecem encrustados no inconsciente coletivo da sociedade brasileira, sendo parte estrutural da sua construção, consequentemente, é também fenômeno constitutivo de nossas personalidades, que se manifesta e se naturaliza em ações, hábitos, situações, falas, sentimentos e pensamentos  que fazem parte de nossa vida cotidiana e que reverberam nas instituições públicas e privadas.

Quando nos recusamos ou nos negamos como racistas, permanecemos inconscientes deste fenômeno, e por ser assim, preservamos conceitos, valores e crenças e alimentamos opiniões e argumentos que, direta ou indiretamente, continuam a segregar e atingir diariamente a população negra que em nosso país nunca gozou das mesmas oportunidades que a população branca.

Os dados estatísticos estão aí para demonstrar tal desigualdade histórica. Além disso, é preciso considerar que pessoas negras tem uma experiência e uma vivência diária que lhes qualifica e capacita a falar da condição racial, ou seja, não se trata de mimimi, pois a experiência racial é a que lhes chega e atinge em primeiro plano.

Conheço uma mulher negra, altamente escolarizada e professora universitária que compartilhou comigo a seguinte experiência: nunca usa chinelos (do tipo havaianas mesmo) ou vai “desarrumada” ao supermercado, caso contrário, é certeiro que será ostensivamente observada por um segurança.      

Nesse sentido, se você, assim como eu, é pessoa de pele branca, é certo que – dentre o repertório de dores pelas quais passou e passa – não há experiência de dor derivada do estigma e da violência que recai sobre a pele preta, e isso por si só nos exigiria, no mínimo, uma escuta sensível e atenta, permanentemente.

No mesmo sentido, se você, assim como eu, é pessoa de pele branca – dentre o repertório de dores pelas quais passou e passa – deve identificar sua prática do preconceito e da discriminação em relação às pessoas negras. Caso não lhe ocorra nenhuma vivência, isso por si só lhe impõe rigorosa auto-observação, pois não escapamos ao conteúdo do inconsciente coletivo da sociedade brasileira escravocrata que forjou nossas personalidades.

Não basta admitir a existência do racismo no nosso país, é preciso admitir a existência do racismo em nós mesmos, torná-lo visível e palpável, investigando suas raízes e sua forma de expressão em nossas relações, pois não havendo autoeducação e autoaprendizagem, nos restará apenas a coerção, pois tanto a injuria racial quanto o racismo são passíveis de incidência de responsabilidade penal, sendo que o crime de racismo é inafiançável e imprescritível.

imagem de capa: ‘Um jantar brasileiro’. Gravura de Jean-Baptiste Debret, 1827 (Google)


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