Que Mudanças a Vida Está me Pedindo Hoje?

Por: Fabiane Simões e Renato Otto

Neste artigo, vamos discorrer sobre as mudanças que a vida está nos pedindo hoje. Para isto, devemos explicar o que queremos afirmar quando citamos o hoje, as mudanças e a vida. “Vida”, “mudanças” e “hoje” são conceitos relativos, que dependem de momento, cultura, ponto de vista, processo educacional, entre vários outros fatores. Para simplificar um pouco e podermos avançar no artigo, vamos definir o “hoje” como o momento atual, ou seja, abril de 2020, no Brasil, em meio a uma pandemia sem paralelos na história moderna. Entenderemos “mudanças” aqui como alteração de comportamento, atitude, formas de sentir, agir ou perceber as coisas, enfim, toda e qualquer alteração em nós ou nas nossas relações. E “vida”? No contexto deste artigo, usamos o conceito vida para sintetizar a sobrevivência de um indivíduo ou da coletividade de indivíduos da espécie humana. Também podemos afirmar que vida é aquilo que nos governa, nos direciona, nos movimenta, enfim, nossa mola propulsora ou fonte de energia.

Uma vez que os conceitos estão esclarecidos, vamos à nossa argumentação. Quais mudanças a vida está me pedindo hoje? Seriam elas diferentes daquelas que a vida sempre pediu para a nossa espécie diante das mudanças impostas pelo ambiente? Seriam diferentes daquelas que fez com que nossos antepassados mais distantes saíssem das cavernas e fossem se agrupar em savanas, constituir tribos e famílias?

Em outras palavras: diante deste grande campo de incertezas da nossa realidade atual, em algum momento fizemos e/ou faremos uma pausa reflexiva e questionamos, em algum grau de profundidade, o sentido de tudo. Ainda assim, continuaremos sobrevivendo, pois, já criamos recursos para essa continuidade de afazeres. Através da tecnologia virtual mergulhamos em um mundo infinito de possibilidades interativas. Nós nos adaptaremos mediante ao caos, alguns mais rápido que outros, a nossa história como espécie nos ensina isso.

Pois, bem! Recorramos à história da nossa espécie contada pelo olhar da teoria da evolução. Afirmamos que o ser humano, como conhecemos hoje, deriva de um processo multimilenar da evolução de espécies e que nossos “parentes” mais próximos seriam os primatas, dos quais evoluímos. Sendo assim, voltemos à época em que os ancestrais do ser humano, os Homo Erectus, dominaram o fogo. O que a natureza (ou a vida) de um primata, que vivia em grupo, propôs a ele de mudanças para que ele aprendesse a fazer isto? Quais as vantagens que aquela espécie, perante todas as outras, obteve do manuseio e posterior iniciação e controle do fogo? Segundo Suzana Herculano, uma Neurocientista brasileira de renome internacional, o controle do fogo pelos nossos ancestrais, entre várias outras vantagens, garantiu quantidade suficiente de alimento para que eles não precisassem passar praticamente todo o dia se alimentando. Além disso, garantiu excesso de nutrientes para que o cérebro deles pudesse ganhar as proporções que hoje nossos cérebros têm. Ou seja, segundo ela, a obtenção de alimentos cozidos deu aos Homo Erectus a sua evolução para Homo Sapiens, ou ser humano moderno.

Caminhando mais na história, e agora falando já da história da espécie humana, podemos citar várias épocas e eventos históricos que levaram o homem, como espécie, a reagir às mudanças ambientais. Sejam elas naturais ou provocadas pelo próprio ser humano. Criamos grupos, aldeias, cidades, feudos, países. Inventamos o encanamento, a filosofia a ciência e a medicina. Mas por quê? Agora vem a parte mais contundente e talvez, polêmica, de nossas argumentações. Por que a vida nos pediu mudanças nos “hoje” daquelas épocas. E para quê? Para que a sobrevivência da espécie humana, seja contra os fatores ambientais naturais, seja contra os riscos gerados pelo próprio ser humano fosse garantida. Ou seja, todas as mudanças que a vida pediu ao ser humano, até mesmo no momento atual, foram de hábitos e comportamentos que fizeram evoluir nossas formas de sobrevivência básicas. O que nos pede a OMS hoje? Fiquem em casa. Não se aglomerem, lavem as mãos, não se cumprimentem com apertos de mãos ou abraços. O que isto garante? Que um vírus, que pode ameaçar a espécie, seja contido ou gere o menor impacto possível coletivamente. E o indivíduo? Suas emoções, sentimentos, dores e prazeres? O que será que a Vida, que se percebe interna a ele, pede de mudanças?

Voltando alguns passos, ou linhas de texto, podemos perceber que as mudanças citadas foram, de certa forma, externas ao ser humano. Não falamos sobre mudanças que ele sofreu internamente. Se ele se percebe diferente ao longo do tempo; se sua capacidade de verificação da própria história e personalidade sofreu alterações, se suas angústias; emoções, sensações e sentimentos ficaram diferentes ao longo dos séculos. Como saber? As ciências psíquicas como a psicanálise, a psicologia e a psiquiatria são muito novas comparadas à história da espécie humana. Para nos localizarmos no tempo, Sócrates propôs o autoconhecimento, com a frase “Conheça a Ti Mesmo”, mais de 400 anos antes de cristo e Freud, propositor da psicanálise, fez suas primeiras publicações sobre o tema entre 1899 e 1905. São quase 2500 anos nos separando de Sócrates e menos de 150 nos separando de Freud e das ciências psíquicas. E então? Será que o ser humano sente mais angústias, dores e sofrimentos hoje do que sentia há 2500 anos? Por quê Sócrates afirmou que deveríamos nos conhecer e Freud propôs a psicanálise? Só pode ser, usando o termo de Freud, pelo caráter inconsciente que nos é próprio. Assim, não seria errado afirmar que o ser humano não sabe se mudou ou não internamente. Não sabe, portanto, nem o que a vida o pede para mudar hoje.

Podemos afirmar, que para nós, que temos a capacidade de autoconsciência, o fato de sermos inconscientes nos incomoda e nos instiga a querer nos livrar desta inconsciência. Porém, não desenvolvemos ferramentas sociais e individuais como a pedagogia, por exemplo, para que este processo se dê de forma natural. Não desenvolvemos, até a atualidade, a “pedagogia do Eu”, para nos conhecermos como propôs Sócrates. Sendo assim, acabamos por não compreender o sofrimento de não entendermos um determinado fator interno e culpamos ou transferimos este sofrimento, ou dor, para uma causa externa mais aparente. Portanto, por inferência, entendemos que por mais que a vida instigou o ser humano a mudanças em relação ao próprio entendimento, ou autoconhecimento, ele não o fez nem desde Freud, nem desde Sócrates e talvez, nem desde sua autopercepção nas cavernas ou savanas africanas.

Deveríamos insistir nas perguntas socráticas: quem sou EU, hoje, no meio desse caos externo? Como estou vivendo nesse mundo que está em sinal de alerta? Se nós nos fizermos estas questões, muito provavelmente, responderemos: sou um (coloque aqui um nome, um cargo, um posto social) buscando formas de me adaptar para melhor sobreviver a esta “fase”. Mas espere, como argumentado anteriormente, neste próprio artigo, a adaptação é automática em todos nós. Porém, além de exímios sobreviventes, os seres humanos são a única espécie no planeta com a capacidade de ter autoconsciência e comunicar isto de forma lógica e coerente. Sendo assim, não é muito pouco apenas reagirmos ao mundo exterior e suas inevitáveis mudanças, sem conseguirmos respostas mais profundas e convincentes para a pergunta Quem sou EU?

Sim, somos seres inteligentes e sensíveis, somos capazes de reconhecer, verificar, descrever, gerenciar, em nós, nossos sentimentos e emoções, mas a maioria de nós, não foi “educada” para realizar tal feito. A questão que fica é: como realizar alguma mudança, se eu nem sei o que possuo para mudar? Em outras palavras, como me distinguir além do externo se sou inconsciente de vários aspectos de mim mesmo?

Estamos querendo provocar a sua Inteligência e Sensibilidade a perceber que você é um Ser Vivo Único, capaz de observar sua capacidade de sentir seu corpo e a vida que pulsa nele. Afirmamos que tudo que está impresso nele tanto fisiologicamente, quanto psicologicamente, é compatível e foi gerado pela própria história vivida, de acordo com a sensibilidade desta vida que pulsa. Além disso, afirmamos que podemos passar por um processo de formação que nos capacita a olhar para este ser interior. Nos capacita estudá-lo, acompanhar os passos da formação de toda a base emocional, sentimental e comportamental impressa nele ou em nós.

Diante disso, que mudança a vida está te pedindo hoje? Pede para que você perceba que a Vida é Interior. E, percebendo isto, se interesse por ela tanto quanto se interessa pelas atividades que te dão prazer, ou pelas ações necessárias à própria sobrevivência. A mudança que a vida nos pede hoje é o início, ou a continuidade do caminho para nós mesmos. Caminho que leva à autonomia e à liberdade de sermos quem somos. Com isto, podemos nos direcionar em qualquer direção compatível com esta vida interna, mesmo que presos por uma quarentena ou forçados aos caminhos mais duros da sobrevivência.

Se pudéssemos falar que Tempo é esse tão obscuro, diríamos que é Tempo de Ser, Ser você na sua capacidade Inteligente e Sensível de se manifestar no mundo. Assim, a partir de indivíduos, que por consequência deste comportamento ético e digno consigo, são também éticos e dignos em suas relações, poderemos pensar numa construção coletiva com os mesmos parâmetros. E isto, certamente levará a espécie humana a novos patamares de relação, dando à Vida, as Mudanças que ela nos pede Hoje.

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