Quando a consciência é uma grande doença no ser humano

“Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa” (Dostoievski). [1]

Tudo estaria certo se vocês não fossem seres pensantes – eis um verdadeiro mantra incômodo de um amigo que insiste em repetir com um sentido único em cada pronúncia. Único porque a direção da provocação tem um destino assertivo: O eu mesmo. E tratando-se do tal “eu mesmo”, provocações como essas revelam a sua autenticidade a conta-gotas, já que não suportamos muito tempo nossa própria presença.

Nossa presença existe em função de nossa consciência. O ser humano desenvolveu, em milhares de experimentos e anos, a capacidade de ter noção de si. Mas veja! Com muita atenção, escrevi “noção de si” e não saber de si.

Propõe-nos uma linha filosófica chamada fenomenologia que consciência é sempre consciência de alguma coisa. Essa afirmação nos permite pensar que só é possível a presença da consciência em nós na medida em que ela esteja sempre em relação com alguma coisa. Ou seja, a consciência surge a partir dessa capacidade que temos de ter noção sobre o que não somos: todas as coisas, objetos, pessoas ou fenômenos fora de nós.

É fácil perdermo-nos nesse linguajar abstrato, por isso devemos pensar de modo prático para desbancar essa noção mística de que certos assuntos estão restritos a filósofos ou outros pensadores. Quando acordamos, após uma noite de sono, e imediatamente nossos sentidos identificam alguma coisa, como o som do alarme do celular, isso nos dá, imediatamente, a seguinte noção: não somos o som do celular e muito menos ele, mas somos aquilo que percebe o som e o próprio celular.

Na continuidade, nossos sentidos vão se ampliando, oferecendo-nos a noção de que temos um corpo, que estamos deitados na cama, no quarto, e as inúmeras figuras de compromissos arquivadas pela memória vão sendo desarquivadas, dando-nos a noção de que também vestimos representações sociais e que temos compromissos por meio delas; enfim, vamos organizando uma visão de que somos alguma coisa ou alguém no mundo e existindo nele. Cada um de nós tem noção de si.

Essa capacidade de se perceber no mundo é aquilo que chamamos, nos parágrafos acima, de consciência; consciência é sempre consciência de alguma coisa. E em função dessas coisas, que dizem respeito aos interesses de nossas urgências dolorosas ou prazerosas, lançamo-nos, no dia, como verdadeiros sobreviventes – e porque não dizer? – que esse tem sido o grande sentido de nossa consciência humana.

Somos seres da consciência das coisas e, por isso, somos capazes de desejar e pensar as coisas do mundo. Rumamos nossos pés, todos os dias, na direção de tudo o que não somos, como bois treinados, ruminantes, no pasto. Somos consumidores – “consumimos dores” – das mais variadas coisas, inclusive dessa coisa que chamamos homem. Embora a maior dor nunca seja preenchida de fato até que a morte nos venha impor o silêncio definitivo, pois, aí, nem consciência há.

Há um grande perigo em encarar essa dor. E nela, a consciência, estruturada para ter noção das coisas do mundo, não é suficiente para identificá-la, exatamente porque ela mora dentro de nós, na dimensão interna de nossa condição humana.

Dentro dessa morada dolorosa escondem-se todos os desejos proibidos ou, como disse um certo alemão incômodo, tudo o que é extramoral – além do bem e do mal. Nós, seres humanos acostumados a desejar e a conquistar os míseros prazeres do dia a dia, para evitar a extensa dor, somos direcionados por uma consciência que deseja pensar as coisas do mundo, mas não a si mesma.

Eis o ponto patológico de nossa consciência: pensar a si mesma e não somente as coisas do mundo. Essa consciência perspicaz, que tem agudeza e penetração de vista, apontada por Dostoiévski, transpõe, de tal modo, essa mera consciência das coisas, porque passa a alcançar com profundidade a superficialidade humana – Que momento de dor e solidão é esse estado de ver a própria humanidade desnudada e as suas limitações. E, por isso, não podemos concordar com essa condição patológica dessa consciência mais aguda e grave?

É necessário meditar sobre a natureza dessa patologia, pois não me refiro ao significado moderno, restrito a noção de saúde do corpo, mas a um olhar filosófico – o convite é pensar a si mesmo. Pathos, já presente na obra Teeteto de Platão, ganha um sentido de espanto (thaumázein), portanto é verdadeiramente um filósofo, ou exercício do pensamento, aquele que se espanta. E essa experiência do susto, do espanto, ocorre na relação com o desconhecido. Visto desse modo, a consciência perspicaz de Dostoiévski é a consciência do espanto pelo desconhecido, exatamente porque ela vai além das coisas para pensar o ser humano em sua real condição.

Essa é a autenticidade dessa patológica consciência mais aguda, que nos confere a capacidade mais sensível de devassar o desconhecido humano que somos, com mais amplidão, detalhes, profundidade, de maneira que passamos a tocar um terreno próprio onde só cabe o “si mesmo” ou cada um em si mesmo – essa é a solidão dos homens perturbados pela consciência mais aguda – é a grande patologia. E a sua grandeza consiste em um olhar para si mesmo, em descobrir novos horizontes da sensibilidade.

Ou então, amigos, permaneceremos apenas como seres da consciência das coisas, vivendo a existência das coisas, sendo a única coisa que não pensa o próprio pensador. Maldito seja o amigo que continua a repetir em minha mente, com inteligência e sensibilidade, o convite à grande patologia de nossos tempos: Tudo estaria certo se vocês não fossem seres pensantes.


[1] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo; tradução, prefácio e notas Boris Schnaiderman – São Paulo: Ed.34, 2000, p.18.

2 comentários em “Quando a consciência é uma grande doença no ser humano”

  1. Altair Carobelli

    Simplesmente maravilhoso, pena que ainda somos tão infantis, no autoconhecimento e temos dificuldades em avançar, por pesar e ainda como humanos.

  2. Carlos R. de Moraes

    Teremos que ter muita paciência para que um dia poderemos enxergar a coisa como ela é, enquanto humanos que somos e achamos que pensamos.

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