Outro olhar

O novo normal ou um outro olhar?

Por: Fabiano Fidelis

“Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez”.[1]

Acordar após uma noite de sono, imediatamente nos arremessa para as preocupações das atividades rotineiras. É como se um programa acionasse o modo ação de sobrevivência para o dia, como um script. A partir daí consideramos os planos para o dia, lugares a que precisaremos ir, contas a pagar, pessoas com quem precisamos encontrar, abraçar, conversar, compras que precisam ser feitas, um passeio com alguém ou com o pet e os compromissos de trabalho que nos aguardam nas ruas ou empresas. Ora, nada mais normal do que atravessar mais um dia da semana em função dos compromissos costumeiros que fazem parte da normalidade do dia a dia.

Apesar de termos familiaridade com a descrição do parágrafo acima, ele não condiz exatamente com o que foi descrito, não é? Há alterações muito significativas e relativas a cada um no contexto atual. No contexto da pandemia, os padrões com que estávamos acostumados, a normalidade a partir do qual o cotidiano se organizava, não é mais o mesmo e nem sabemos se será do mesmo modo.

O contexto atual é de incertezas, pelo menos para a maioria. A ordem conhecida abre espaço para um certo sentimento de caos, de certa desordem, em comparação com os referenciais de vida que tínhamos pouco tempo atrás. Talvez, neste momento, o passado seja mais desejado do que um futuro desconhecido. E entre as dimensões temporais há um medo presente provocando-nos não só ansiedade e tensão, mas uma espécie de percepção de que estamos em um “novo normal”.

O que é o novo normal? Estamos em um novo normal? Caminhamos para um novo normal? Carecemos pensar, caso contrário estaremos sentenciados à normalidade de uma visão irrefletida, concordam? Bom, como sei que nosso diálogo se dá por meio deste texto, considerei que se discordar não teremos razões para continuar, exatamente porque refletir é condição para entender. Caso concorde, então precisaremos entender os significados que constituem a forma de comunicarmos nosso olhar para este momento como um “novo normal”, exatamente porque todo significado implica a forma como representamos, interpretamos e nos relacionamos conosco mesmos e com o mundo.

Como você define normal? O latim “normális” faz referência aos instrumentos que medem o ângulo reto. Nesse caso, destacam-se significados como precisão matemática, regras, o que esteja em conformidade com as normas. Partindo dessa noção, ser normal é ser alguém que esteja em conformação com as regras definidas e instituídas para a condução de todos, em diversas áreas da vida. O contrário disso é a anormalidade, o irregular, o patológico.

já o termo novo refere-se a algo que tem outra aparência até então desconhecida. O novo refere-se a algo que inicia, tanto quanto algo que indica originalidade. Partindo dos significados descritos, o novo normal pode ser definido como a origem de outra forma de viver, segundo regras. No novo normal temos que nos conformar com outra forma de viver. Ora, mas o que se alterou na forma de vivermos? (Ou será sobrevivermos?) E o que se alterou indica a presença de um novo normal?

Se dissermos que houve muitas alterações no modo de viver o dia a dia, devido aos cuidados com a limpeza, na forma de nos relacionarmos com outros seres humanos ou nos ambientes ou métodos de trabalho, certamente será preciso reconhecer alterações na forma de viver socialmente. Mas, fundamentalmente, o que se alterou em nós quanto à necessidade de sobrevivermos física e emocionalmente?

Se afirmarmos que a presença do vírus e da pandemia é incomum e que, por causa dela, tudo se alterou, poderemos reconhecer, sem dúvida, que o impacto seria muito significativo, mas não é o vírus uma realidade de milhares de anos na história do planeta? E não tem feito parte de nossas vidas as mais variadas presenças de vírus e outras patologias em diferentes períodos da história?

Antes que se possa considerar que essa reflexão caminha para uma desconsideração quanto à gravidade do momento, é preciso lembrar que a proposta do texto é refletirmos sobre o novo normal. O momento é de gravidade e requer cuidados, sobretudo quando envolve a sobrevivência do indivíduo e da espécie humana. Mas no que esse contexto nos permite afirmar que há um novo normal ou que haverá um novo normal?

A noção geral de novo ou novidade é usada, de modo comum, quando desejamos referenciar a necessidade de mudanças a partir do que classificamos como velho ou passado. Nascimento para um novo corpo, prazer em um novo relacionamento, nova oportunidade para um novo ano, novos comportamentos para aqueles que são negados ou reprovados por nossa noção moral. Isto é, somos seres desejantes do novo desde que possamos sentir a recompensa de uma presença prazerosa. Do contrário, é muito desagradável permanecer no velho desprazer.

O que quero considerar com essa reflexão é que talvez o novo normal não seja assim tão novo. Que as mesmas regras e normas que definem um padrão de normalidade para vivermos não se tenha alterado tanto. Já que continuamos seguindo as leis internas – emocionais, tanto quanto as leis externas – sociais, que definem nosso modo de proceder na existência. Ora, se permanecemos lutando para manter as formas ou as condições de existência, não é porque sobreviver é uma lei? Há algo novo nisso?

O ser humano é um sobrevivente, e sobrevive a milhares de anos em meio às mais complexas adversidades provocadas pelos diversos ambientes e realidades de que fizeram e fazem parte, bem como pela própria natureza humana – sim! Os perigos também vêm de dentro. E considerar isso implica necessidade de olhar para si mesmo, como esse animal racional, que é interferido pelo meio de que faz parte ao mesmo tempo que interfere. E que de dentro de nós partem ações e reações que nos conduzem aos mais variados dramas humanos, aparentemente novos, porém os mesmos. Os dramas humanos são apresentados com um teor de novidade, porém, talvez não passem de “um museu de velhas novidades” [2].

A implicação desse modo de ver permite-nos considerar que o novo normal, ou seja, o desejo de uma nova forma de viver, baseada nas alterações mágicas das normas e leis sociais e internas, também constituídas na personalidade de cada sujeito, não altera a natureza humana, tanto quanto não nos retira o caráter inconsciente de fatores internos e externos que ocorrem e nem nos damos conta. Visto desse modo, como instaurar ou apontar para um novo normal se o mesmo animal humano continua desconhecedor de sua natureza mais íntima? Como apontar para um novo normal se o que consideramos como o velho normal se move nas entranhas de nossa cultura e da nossa intimidade, de modo ativo e determinante, influenciando em escolhas e decisões importantes em nossas vidas como indivíduos e sociedade?

Talvez alguns de vocês estejam se perguntando, nessa altura do texto, qual a relação com a citação do texto de Fernando Pessoa enunciada no início do texto? Ora, a citação é filha da obra Desassossego. E como tal propõe retirar-nos o sossego, sobretudo interno, quanto às certezas sobre a normalidade confortável com que buscamos vestir o caos desconhecido e temeroso que se apresenta. Exatamente porque é assustador considerar que somos capazes, tanto quanto os loucos da citação de Fernando Pessoa, de justificar com tanta coerência e lógica nossos delírios e ilusões sobre um novo normal em vez de reconhecer o desconhecimento temeroso que sentimos, sobretudo, em nossa intimidade. Estranho considerar que somos nós, os loucos da normalidade, que instituímos a normalidade dos loucos.

E nesse ponto da reflexão é preciso ao menos considerar que o novo normal carece de uma certa anormalidade do nosso olhar para conosco mesmos. Dessas anormalidades que provocam estranhamentos, que transpõem certas regras ou normalidades para colocar-se em um ponto de auto-observação em que seja possível reconhecer nossa real posição neste momento. É possível que esse complexo exercício de nos observarmos nos leve à famosa experiência socrática, de espanto e temor, exatamente como Fernando Pessoa a descreveu: “(…) perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez”. Porque tal experiência de espanto nos arremessa à experiência dolorosa de reconhecimento de nossa ignorância, tanto quanto a responsabilidade de compreender e viver o horizonte desconhecido apresentado pela ignorância.

Partindo desse ponto de vista, mais do que um novo normal, parece-me ser mais coerente instaurar um outro olhar, sobretudo sobre a nossa própria humanidade: esse campo a partir do qual existimos e nos relacionamos conosco mesmos, com o outro e com o mundo. E para isso o autoconhecimento torna-se fundamental. Exatamente porque o novo normal parece tender a revestir velhas formas ante o desconhecido assustador, como quem olha para o passado, sobretudo as partes consideradas mais prazerosas e de interesse próprio, desejando-o com outra face. Enquanto um outro olhar exige o enfrentamento dos delírios e ilusões apresentados na própria face, e por isso tende a buscar compreender a vida – em sua exata medida – para fazer dela uma experiência única.

[1] PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. – 1 ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 392, §430.

[2] Trecho da música “O tempo não para” interpretado por Cazuza e Frejat. Compositores: Agenor De Miranda Araújo Neto / Arnaldo Pires Brandão.


1 comentário em “O novo normal ou um outro olhar?”

  1. Ana Lucia Lourenço Rodrigues

    Loucos da normalidade! Com certeza!
    “O novo normal carece de uma certa anormalidade…”
    Muito bom, valeu pela reflexão Fabiano.

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