Não somos quem acreditamos ser

Os olhos se abrem de manhã e talvez os primeiros pensamentos nos arremessem aos compromissos do dia. Levantamos da cama e encontramos no espelho aquela imagem habitual que nos acostumamos a encontrar todo dia.

Do reflexo que se mostra no espelho, nem sempre gostamos, nem sempre nos afeiçoamos. Há, em alguns momentos, um sentimento de estranheza diante da própria imagem. Mas tudo bem, o que há demais para se ver na própria imagem?

Após os primeiros asseios, assumimos para nós, automaticamente, uma mãe, ou pai, ou filho para dizer bom dia uns aos outros. Após o café da manhã somos incorporados pela imagem do ou da profissional, compatível com o ambiente de sobrevivência social de que fazemos parte, ou, talvez, de uma estudante que se desloca até a escola ou universidade.

Disse um filósofo alemão que: “O mundo é a minha representação” [1]. A proposição desse pensador nos permite pensar que nos relacionamos com o mundo através de várias representações constituídas em nossas mentes. Mais ainda, relacionamo-nos com o mundo através das representações que incorporamos como se fôssemos elas mesmas.

No mito de Narciso, narrado pelo poeta romano Ovídio, o belíssimo jovem apaixona-se pela própria imagem refletida em um lago tranquilo após rejeitar o amor da bela ninfa, Eco, que morre por conta da rejeição de Narciso. Sem ter noção de que era seu próprio reflexo, Narciso permanece até o final da vida contemplando a própria imagem desejando possuí-la sem sucesso. Dizem que nunca encontraram seu corpo no local, apenas uma flor, com um perfume entorpecente, a que deram o nome de Narciso.

A grande dor de Narciso é ter apaixonado pela imagem perfeita, seu reflexo, sem poder possuí-la. Ele apaixonou-se entorpecido pela própria imagem sem jamais poder tê-la para si ou tornar-se aquela imagem. Partindo dessa noção que o mito oferece, importa-nos pensar: quantas imagens e representações temos de nós mesmos? E quais correspondem à realidade do que realmente somos?

O termo narcisismo, empregado no ramo da psicologia, oferece um referencial interessante para reflexão desse texto, de que talvez estejamos muito convictos de quem somos, de como nos comportamos ou de que a imagem que apresentamos ao mundo e a nós mesmos seja exatamente aquela que acreditamos ser.

Narcisismo trata, de modo geral, do amor pela própria imagem. Freud, em Introdução ao Narcisismo, propõe que do nascimento até certo período da infância é constituída uma imagem de si a partir da qual buscamos realizá-la, mas nunca completamente. A imagem é construída com base nos referenciais materno e paterno de modo que os “pais são levados a atribuir à criança todas as perfeições (…) e a ocultar e esquecer todos os defeitos” [2], tanto quanto pelas influências e exigências do meio social.

O que nos importa refletir a partir do pensamento de Freud, nesse texto, é que há uma autoimagem construída pelos desejos, imagens e representações de outras pessoas. Que, exatamente, essa noção que temos sobre nós mesmos talvez não corresponda à realidade, ou seja, não somos quem acreditamos ser.

Cultivamos dentro de nós, e a partir de nós, um ideal de ser humano que nunca edificamos de fato. Estamos sempre em busca de agradar e fazer o melhor em vista do que nomeamos como o pior. Somos tragados, ora ou outra, por uma face desconhecida que tememos conhecer e, sobretudo, mostrar. Tememos aquele desconhecido no espelho que, às vezes, estranhamos e desviamos o olhar. É melhor continuarmos a acreditar na imagem que temos de nós mesmos, como se cheirássemos a flor de narciso, entorpecendo-nos na crença de uma autoimagem perfeita.

Segundo a Educação de Essencialidades, nossa personalidade, aquilo a partir do qual conquistamos uma noção de individualidade, é desenvolvida de 0 a 3 anos. É nesse período que ocorre a formação do sistema de autoimagem, com base em modelos arquetípicos que definem características, comportamentos, ações e reações, segundo o ambiente e os estímulos do meio.

Tal estruturação ocorre, sobretudo, através da relação com a primeira e mais importante presença para a criança, a figura materna. Nesse sentido, aquilo que me faz ter noção de quem eu sou e como devo ser está profundamente ligada à relação com a mãe, o pai e outros indivíduos. Visto desse modo, a autoimagem que projetamos no meio tem origem em conteúdo do período infantil. [3]

Ora, se aquilo que nos oferece uma noção de quem somos e como devemos ser não foi constituído por nós mesmos, mas pela interação em ambientes, com nossos pais ou responsáveis semelhantes, o que realmente sabemos sobre nós mesmos?

É função da autoimagem fazer-nos crer que somos aquilo que realmente não somos, ou seja, o sistema de autoimagem constitui uma verdadeira proteção contra constrangimentos e abalos causados no dia a dia, nos relacionamentos, onde se abrem pequenas brechas em que identificamos ações, reações e comportamentos que reprovamos, negamos, mas que descrevem traços de uma face obscura e desconhecida por nós mesmos.

Como diz um amigo, crer não é saber. A imagem que cada um tem de si mesmo corresponde a fragmentos de muitas influências que nos marcaram no período infantil. Se desconheço minha história e meu contexto de formação, então é necessário reconhecer que a imagem que trago de mim ainda é uma parca visão sobre mim mesmo. E como saber? Conhece-te a ti mesmo! Ou então permaneceremos como Narciso contemplando, apaixonadamente, a própria imagem sem ter muito ou nenhuma noção de quem realmente somos?

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[1] SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. – Rio de Janeiro: Contraponto, 2001, p9.

[2] FREUD, Sigmund. Obras completas – Introdução ao narcisismo, Ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 12, p.25. 

[3] Para saber mais acesse o conteúdo do Programa Inex, módulo I.

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