Não é possível ética sem autoconhecimento

Quem nunca sentiu uma ressaca moral? Quem já viveu situações de convivência em que as ações ou reações deflagaram uma contradição interna de constrangimento, questões e dúvidas sobre se agiu bem ou mal, já sentiu.

Se observarmos com atenção, será interessante notar que não é todo mundo que se constrange ou questiona se agiu bem ou mal para a mesma situação.  Há muitas evidências em nossas condutas cotidianas, pois há quem jogue papel na rua sem se constranger com tal ato, como há quem procure não fazê-lo.

As condutas humanas também escondem contradições, sinal disso, por exemplo, é quando ouvimos a frase “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Ora, diga isso a uma criança que certamente aprende mais por observação e imitação dos exemplos do que pelas palavras dos adultos.

O homem social é um ser da conduta. Convivemos e nos relacionamos nos mais diferentes ambientes, seja ele social, político e familiar, a partir de condutas. Cada modo de agir está enraizado em uma cultura e na formação dos indivíduos.

Uma conduta em si mesma não é boa ou má, ela é um modo de agir que orienta uma ação ou comportamentos segundo regras de convivência e um fim – a isso podemos chamar de moral.

Assim é possível reconhecer que há moral nas relações familiares, nas instituições religiosas, políticas, educacionais, econômicas, tanto quanto há moral nas prisões ou em organizações criminosas. 

Cada um de nós é capaz de adotar diferentes condutas segundo os ambientes de que fazemos parte, assim como um camaleão. E se considerarmos a lógica dessa ideia teremos que concluir que ser um homem moral não implica ser ético.

Ética é a ciência da conduta. Enquanto ciência, a ética é a ação de pensar as condutas segundo a natureza humana e a sua finalidade. Nesse caso, ser ético exige de nossa parte pensar mais a fundo os valores que orientam nosso modo de agir, nossas condutas.

Visto desse modo, até aqui, qual conduta (ou condutas) orienta o seu modo de agir nos mais diferentes ambientes? Você conseguiu lembrar-se de um momento de ressaca moral? Você reconhece que teve controle sobre o seu agir? É claro que essa é uma pergunta capciosa, se houve constrangimento e dúvida sobre se agiu mal ou bem, não há controle e sequer deliberação sobre o agir.

Se a deliberação do modo como agimos nem sempre ocorre do modo como gostaríamos é porque ela não teve origem num ato autoconsciente, mas inconsciente. Reconhecer isso implica admitir que temos, dentro de nós, valores, crenças e conceitos orientadores do nosso modo de agir e interpretar as relações, conosco mesmo e com o outro, como uma dimensão inconsciente.

Agir segundo uma moral não significa, necessariamente, ter consciência ou compreensão da origem, necessidade, funcionalidade e finalidade da conduta. Pensar desse modo permite-nos considerar que nos conduzimos para direções, através de ações e reações, sem sabermos o porquê. E mais ainda, podemos propor-nos a questão: sou mais conduzido pela moral que desconheço, ou eu me conduzo através da moral que conheço? E se conheço, por que sinto constrangimentos inquietantes?

Em “Ética a Nicômaco”, do filósofo Aristóteles, o pensador propõe que a “felicidade é certa atividade da alma segunda perfeita virtude” [1]. Com esse pensamento, ele conduz as reflexões em torno da ética propondo que a virtude moral é aquela que se coloca na mediedade, ou seja, entre os excessos e as faltas. Portanto, para o pensador, o homem ético é aquele que está atento aos movimentos de suas emoções, desejos e valores, conduzindo-se, racionalmente, entre os extremos da falta e dos exageros em vista da felicidade e do bem comum.

Considerando a proposta ética de Aristóteles, é necessária uma virtude a partir da qual possamos aprender a ser éticos. E se uma virtude reside dentro de cada um, como exercê-la sem conhecê-la? E onde conhecê-la, senão em si mesmo.

Pensar, certamente, é uma das grandes virtudes humanas que faz toda a diferença entre o limiar da moral e da ética. Partindo dessa perspectiva, toda ética exige uma observação atenta sobre si mesmo. Exige de cada sujeito o exercício auto-observador e reflexivo sobre os próprios valores orientadores da conduta, isto é, exige que se conheça a si mesmo. 

Como lidar com o desconhecido que orienta a conduta até à ressaca moral? Considerar que sou mais orientado pela inconsciência do que pela autoconsciência exige admitir que não é possível ser ético sem autoconhecimento.  E mais ainda, é necessário fundar uma ética consigo.

Não há como desconsiderar a frase “para quem não sabe para onde vai e como vai, qualquer caminho serve” para pensarmos a necessidade de uma postura ética. Pois, do mesmo modo, para quem desconhece a si mesmo, bem como os valores orientadores da própria conduta consigo mesmo e com o outro, qualquer forma de agir serve, mesmo que contrarie a si mesmo e ao bem comum. 

[1] ZINGANO, Marco. Ethica Nicomachea I 13 – III 8. Tratado da Virtude Moral. São Paulo: Odysseus, 2008.

Fabiano Fidelis

Filósofo e Educador de Essencialidades

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