Fragmentos da pessoa que estou

O autoconhecimento é uma imposição evolutivo-progressiva. Exige compromisso e muita coragem para ir além de conceitos herdados puramente para garantia da sobrevivência, seja fisiológica ou emocional.

Aos poucos, desenvolvendo o comportamento de auto-observação, é possível a identificação da fragilidade da criança interior (psicológica), regente de um rígido sistema formado para sua autoproteção.

Pode-se reconhecer, após incontáveis e contínuos estímulos recebidos nos ambientes do Sistema Tempo de Ser, que algo observa um mecanismo inconsciente.

Assim, a seguir, este algo descreverá, brevemente, nuances observadas de sua manifestação, identificando a mulher cuja figura materna habilmente escondia.

Breve história de uma primogênita.

Uma jovem mulher casa-se, apaixonada. E quando sua primeira filha se encontra com onze meses, já grávida de sua segunda filha, o esposo falece em um acidente automobilístico.

Então, aquela mulher, na busca ilusória de reencontrar o esposo que partiu, casa-se com o irmão deste. (Diria, anos mais tarde, que teria sido pressionada para tanto, mas depois admitiria, em si mesma, a responsabilidade por suas escolhas).

Resultado: um casamento por luto, ambos se uniram para encontrar uma figura que havia desaparecido para sempre.

A viúva ficaria presa, à espera do retorno do marido morto, por mais de trinta anos. Tentaria, em vão, encontrá-lo em seu irmão. Mas o cheiro, o toque, os gestos, os hábitos, enfim, tudo a incomodava. Era outro indivíduo, mas isso ela não via.

Por outro lado, o tio deixou de ser ele mesmo para tornar-se sombra do irmão. “Morreu” ao casar-se. E o que se esperava dele era algo que ele jamais poderia dar. Viveu um alto grau de rejeição. Por mais que se esforçasse, não existia. Para compensar tantas frustrações, em decorrência natural, desenvolveu vícios intensos.

Assim, para a menina órfã, desaparece o tio, que se torna padrasto. Como se teria sentido com a morte do irmão mais velho? Fragilizado, sozinho, abandonado? Isso demorou muito a ser considerado pela menina.

Embora, pelo olhar da viúva-mãe, a criança, no âmbito da sensibilidade psíquica cega (ou de sobrevivência), identifica no tio o que produzia a sua aceitação no meio: a força provedora que mantinha a fragilidade materna. Apesar das dificuldades que a mãe tinha com ele, era a ele que ela agradava.

A primogênita, então, apagou de suas memórias conscientes os momentos de afeto presentes na segunda infância (já que da primeira naturalmente não se recordaria). Tinha sido apenas alguém muito cruel, duro e exigente. Porém, seu pai biológico era, na sua visão mágica e idealizada, um ser perfeito, que havia sido dela retirado (punição divina?).

Na adolescência, a mulher separa-se do tio. Mas a menina jamais conseguiria fazê-lo. Ele foi por ela muito admirado e querido, embora isto estivesse soterrado em seu inconsciente.

Já na fase adulta, manter a dependência materna foi a forma de obter afetividade: filha dependente de uma mãe não emancipada.

Ler a história constituída em si é autoconhecimento. Os fragmentos não podem ser direcionados se não forem vistos. O tio-provedor e a mãe-viúva fazem parte da constituição manifestativa deste algo, nesta existência.

É um desafio a cada ser humano reler a história constituída cerebralmente pela visão da criança, que um dia esteve, e encontrar, nas entrelinhas de sua sensibilidade, seus próprios fragmentos.

 

Educadora: Camila Coimbra

Núcleo de Birigui

 


Contos e Autoencontros

A não compreensão e entendimento do mundo interior levam-nos à busca de efetivar meios de auto-observação, para que fiquem visíveis atitudes e sentimentos que nos movimentam. Um dos meios para observarmos nossas movimentações é a descrição do nosso percurso como educador de essencialidades. O texto publicado anteriormente é uma autodescrição resultante de um projeto elaborado pelos Educadores de Essencialidades do Núcleo de Aprendizagem de Birigui do Sistema Tempo de Ser, dentro da atividade do grupo vespertino de Prática de Inteligência Mediúnica. O projeto tem como proposta a exposição ao meio social das repercussões dos estímulos de autoaprendizagem aos educadores de essencialidades nos ambientes do Sistema Tempo de Ser. Durante sua execução, tem sido considerado que o “autoencontro” pode ocorrer a partir da auto-observação e autodescrição dos “Contos” (história imaginada) que permeiam a existência humana.

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