Espiritualizar-se é compreender a própria humanidade

É tarde da noite e uma criança levanta-se com vontade de ir ao banheiro. Sente medo, tenta acordar seus pais, sem sucesso, e decide, pela primeira vez, transpor o caminho até o local desejado, atravessando os limites do conhecido até o desconhecido – escuro – que envolve o caminho e o ponto de chegada. Seus olhos entretêm os traços das sombras no escuro, enxerga monstros imaginários, seu coração dispara, sente vontade de gritar por ajuda, mas, com coragem, acende a luz e em um único ato torna visível o desconhecido.

Mais do que conseguir ir ao banheiro, a criança conquistou, como um bom explorador, a liberdade de gerir seus temores frente à realidade desvendada. O que alterou foi a sua relação com a sua imaginação, temores consigo mesmo, fruto da compreensão que conquistou em si mesmo. Essa é uma experiência da intimidade que só ele viu, aplicável para todos os outros desconhecidos com que se deparar fora e dentro dele.

A experiência da criança serve para situarmos, de modo prático, a noção de espiritualização que quero argumentar neste texto. Espiritualizar, como verbo de ação, é parte da história humana desde seus primórdios e tem orientado o homem para a experiência de busca de transcendência entre o profano e o sagrado.

Em uma concepção geral, espiritualismo é um modo de crer e pensar a existência humana a partir de uma realidade preexistente à matéria. Reconhecer-se como alguém espiritualista não implica ter, necessariamente, uma religião, mas entender a vida como algo que se manifesta, também, para além da realidade estritamente fisiológica.

A espiritualização é uma ação que corresponde a uma transcendência do que está posto, da matéria, do conhecido, em direção a uma espécie de dimensão espiritual desconhecida.

Há muitos indícios na história humana, desde a primitividade, de busca da transcendência. Na relação com os fenômenos da natureza, o homem atribuiu superioridade ou inferioridade, de diversas formas, como um modo de relacionar-se com o desconhecido.

Em teogonia [1], de Hesíodo [2], o poeta narra o surgimento do universo, do planeta, dos homens e a sua relação com os deuses. Os fenômenos do universo e da natureza ganham traços humanos, tais como tempo (Cronos), raios (Zeus), a fúria dos oceanos (Poseidon) e até a morte (Hades).

O ser humano, regido pelo destino implacável de sua finitude, é submetido a forças maiores do que ele. Os fenômenos desconhecidos ganham formas simbólicas imagéticas de nossos temores, dores e prazeres humanos – tais como a criança que imagina os traços monstruosos no escuro desconhecido.

Visto desse modo, a experiência espiritual é, para o ser humano, muito mais  uma relação com o desconhecido do que com o conhecido. Há, na forma como buscamos experimentar a espiritualidade, mais de nossas necessidades infantis do que necessidades de uma outra maturidade desconhecida. Concebemo-la como força que orienta o nosso destino no mundo e na existência, definindo nossa forma de entender, agir, existir e morrer. E mais ainda, o desconhecido projetado na natureza, nas relações e ambientes e fenômenos exteriores, simbolizados pelas mais diversas representações sagradas, reside em nossa intimidade humana.

Em meio a essa perspectiva, que o texto oferece, é inegável um horizonte desconhecido que se apresenta: o ser humano. Ora, se estamos diante de um fenômeno desconhecido é porque o desconhecemos. E a experiência do desconhecimento é do sujeito que desconhece, está dentro de nós.

Se tomarmos o significado de que espiritualizar-se é ação de transcender, ir além da humanidade para atingir algo melhor e superior ao homem, como realizar isso apenas pela experiência da crença e da imaginação infantil? Não conceberíamos, nessa dimensão superior, apenas uma realidade imaginada segundo necessidades humanas ainda desconhecidas?

Há algo que se destaca nessa reflexão, que prefiro formular em forma de questão: será que compreendemos o que seja espiritualizar-se? Será que espiritualizar-se é compreender o fenômeno desconhecido diante de nós ou o desconhecimento e o desconhecido dentro de nós?

Se pudermos apreciar, por um instante, a experiência do silêncio do reconhecimento da própria ignorância, sentido, sensivelmente, em nossa intimidade, é possível imaginarmo-nos em um quarto escuro, durante a noite, desejando transcender na direção de outro ambiente mais iluminado, porém, teremos que enfrentar o temor de atravessar o escuro corredor – como a criança.

Transcender, nesse caso, é transpor a ignorância para o saber. E se reconhecermos que o desconhecimento e o desconhecido moram na intimidade humana, compreender o homem é o ato de espiritualizar-se pela compreensão do mesmo.

Tal como a criança citada nos primeiros parágrafos, espiritualizar-se é a ação de atravessar os ambientes escuros da própria intimidade humana lançando luz ao desconhecimento e às imaginações que distorcem a realidade.

Ora, como seria lançar luz ao desconhecido que reside em cada um de nós? Não nos tornaríamos senhores de nossa própria casa? Não seria o maior ato espiritual a compreensão e uma direção digna, sensível e inteligente à nossa própria humanidade? Como diz um amigo, repetidamente, conhece-te a ti mesmo.

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[1] também conhecido por Genealogia dos Deuses, é um poema mitológico em 1022 versos hexâmetros escrito por Hesíodo no século VIII a.C., no qual o narrador é o próprio poeta.

[2] Hesíodo foi um poeta oral grego da Antiguidade, geralmente tido como tendo estado em atividade entre 750 e 650 a.C.

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