Coronavírus e o medo humano

O que a pandemia que atinge a humanidade atualmente pode ensinar-nos sobre nossa existência.

Uma celebridade não desejada

Sim, ele chegou até nós!

A última celebridade mundial, que tem movimentado as multidões, preenchido as telas e bagunçado a economia, não é um roqueiro maluco, um desportista tatuado ou alguma cantora cosmética: é um vírus.

Mas a sua “turnê” pelo planeta não é nada glamourosa e ninguém, em sã consciência, iria pagar para vê-lo. Ao contrário, é um tipo de atração demoníaca, que espalha o caos, a dor e a morte por onde passa.

Não é à toa que o nome desta viagem mundial se chama pandemia.

Este termo de origem grega1, que integra pan (todo) e demos (povo), é usado com cautela por autoridades que regulam a saúde2, justamente porque é o sinal vermelho, piscante e sonoro, de que uma doença infecciosa mortal está se alastrando com rapidez.

Deste modo, ele faz com que povos possam organizar-se para, literalmente, combater o ilustre desconvidado que, a despeito de toda a má reputação, seguirá sua carreira.

O “corona”:

Mas quem é, ou melhor, o que é o afamado coronavírus?

Descendente de uma antiguíssima linhagem de pelo menos três bilhões de anos3, o coronavírus é da família dos CoV que integram pelo menos outros sete tipos conhecidos.

Já tivemos o desprazer de encontrar com os primos do “corona” (um apelido diminutivo charmoso) em outras oportunidades, como nas epidemias de 2002 e 20123.

É por isso que os repórteres insistem em dizer “novo coronavírus” quando se referem ao prestigiado garoto, pois ele é o filho mais novo desta prodigiosa família.

Vírus é algo dificílimo de definir.

Não só pelo seu tamanho, mas, principalmente, porque ele não consiste nem em animal nem em vegetal, apesar de se comportar de forma idêntica aos elementos fundamentais destes organismos, que são as células.

“Todo vírus é feito essencialmente das mesmas coisas que você: uma cápsula oca, de proteínas e gorduras, no interior da qual há um pedaço curtinho de material genético…3.

A nossa história com os vírus:

Mas, diferentemente das demais formas “vivas”, um vírus não tem todos os “instrumentos” para produzir uma complexidade orgânica. Deste modo, ele fica de organismo em organismo roubando esses itens, sobretudo o ribossomo das células, fazendo com que estes trabalhem para ele e não mais para o organismo de origem, carinhosamente chamado de hospedeiro.

Não se assuste, mas somos um verdadeiro resort das mais variadas formas micro-orgânicas da Terra.

Nas palavras de Bill Brysson, repórter americano e autor do magnífico livro “Breve história de quase tudo”: “Se você goza de boa saúde e tem bons hábitos de higiene, terá um rebanho de cerca de 1 trilhão de bactérias pastando em suas planícies carnudas – cerca de 100 mil em cada centímetro de pele4“.

Isso porque estamos falando da pele e de bactérias.

Deste ponto de vista, a nossa relação, como espécie, com micro-organismos, costuma ser, digamos, balanceada.

É o que se chama, em termos biológicos, de simbiose, ou seja, quando uma forma de vida depende de outra para sobreviver.

Sim, dependemos destes micro-organismos, inclusive dos vírus.

Eles contribuem para nosso desenvolvimento, sobretudo em implementações genéticas. Na prática, isso quer dizer que, graças a infecções sofridas e superadas no passado, a espécie humana absorveu características genéticas de vários vírus, o que veio a contribuir para desenvolver determinadas sínteses de proteínas, colaborando para moldar-nos como somos hoje3.

Uma gangorra desequilibrada:

Até aí tudo bem, mas isso não dá o direito de esse sujeito abater milhares, senão milhões de seres humanos, como no caso das infecções por HIV ou do ortopoxvírus (causador da varíola5). A propósito, perto destes dois, o “corona” não passa de uma subcelebridade.

Mas, continuando, se o equilíbrio faz bem para nós e para eles, por que destruir ferozmente o hospedeiro? Por que acabar com o resort se é possível voltar no próximo ano para outra temporada?

A questão é que não há senões neste jogo:

“A única razão da existência de um vírus é fazer mais de si mesmo. Ele é um pedacinho de informação genética que se replica. A razão de sua existência, diga-se, é a replicação3.”

Neste caso, o “equilíbrio” é mantido somente por um lado: o nosso!

Fomos nós que desenvolvemos as maneiras de lidar com este aspirante ao sucesso global. Na verdade, todas as formas de vida precisam lutar com vírus, desde o mais remoto tempo da vida3-4.

Sendo assim, recomenda-se, no mínimo, cautela ao falar de infecções que se esparramam mundialmente. E cautela aqui é medo mesmo.

Prontos para a guerra:

Pois é!

Em uma pandemia, um vírus tentará tomar nosso corpo para ele, mas antes, ou a despeito disto, ele nos infligirá um terrível medo.

Horas e horas de reportagens televisivas, opiniões e opiniões de especialistas, receitinhas caseiras, quarentena e até mesmo a turma do “deixa de frescura”, tudo isso é uma reação de medo ante este que é reconhecido, por nossos sistemas de defesa bioquímico e mental, como agente do mal.

Como qualquer forma de vida, a espécie humana tem que se virar para dar conta de sua sobrevivência, e isso inclui os embates com predadores naturais.

Já faz um tempo que ocupamos o topo da cadeia alimentar, mas os vírus, de tempos em tempos, vêm lembrar-nos que isto tem um preço.

E guerra contra um vírus é uma das mais difíceis, porque – onde ele está?

Para este tipo de inimigo (veja que a conversa aqui já mudou – de “celebridade” para “inimigo”), o modelo básico de medo, regido pela amígdala no cérebro6, não basta.

Este padrão de comportamento depende exclusivamente de informações sensoriais para reagir e, como o vírus é invisível a olho nu, recorremos ao outro sistema, o que vincula informações do hipocampo, responsável pela geração de memórias, ao córtex nas áreas ligadas ao planejamento7.

Qual é a melhor estratégia?

Neste sentido, o medo de ser contaminado leva-nos a buscar subsídios de informações na própria memória, para montar uma estratégia de combate.

Nisso conta todo tipo de experiência, mas, as que vão ter prioridade são as que tiverem um “carimbo” da amígdala.

É o tal do gato escaldado.

Um dia passamos por algum medo intenso, como quase ser atropelado, por exemplo, com o veículo freando bruscamente bem próximo a nós. Reagimos de forma automática baseados nesse medo (modelo regido pela amígdala), e a informação do som da frenagem fica gravada de forma privilegiada no hipocampo, de modo que qualquer som semelhante nos faz acelerar o coração, ainda que seja somente “água fria”.

Mas fora alguns surtos de dengue e filmes apocalípticos, em geral não convivemos com pandemias, e isto é um cenário perfeito para que o medo imaginário tome parte num processo franco de ansiedade generalizada6.

Ficamos vidrados por informações, passamos a manter o pensamento concentrado, a maior parte do tempo, naquele assunto, buscando formas e formas de nos adequarmos à estratégia de luta, gerando estresse e mais medo.

O vírus leva a vida que a gente leva:

Em geral, vale a pena seguir recomendações de gente mais abalizada, como representantes de órgãos públicos e/ou de instituições reconhecidas no assunto.

Mas aí chegamos a algumas questões importantíssimas:

Que tipo de vida estamos vivendo?

O que o coronavírus levará consigo se ele nos alcançar? Se ele me alcançar?

Um vírus é um motor replicante. E eu? Que sou?

Com a “Educação de Essencialidades”, temos aprendido que, se os desafios de sobreviver são gigantes, os de se conhecer são colossais.

Por isso, fazer o autoconhecimento traz resultados exponenciais, porque, ao mesmo tempo em que necessidades de equilíbrio interno são sanados, podemos direcionar recursos para cuidar melhor de nós mesmos e daqueles que nos rodeiam.

Diz a história que infecções como esta costumam passar. Deixam seu rastro e algumas marcas indeléveis, mas a humanidade continuará.

Enquanto isso, vale a pena pensar, enquanto vê, da sua janela, o medo protegendo-o.

  • Que tipo de vida estou vivendo?

Referências:

1-https://www.revistas.ufg.br/iptsp/article/download/17199/10371/ (visitado em 28 de março de 2020).
2-https://saude.abril.com.br/medicina/oms-decreta-pandemia-do-novo-coronavirus-saiba-o-que-isso-significa/ (visitado em 28 de março de 2020).
3-https://super.abril.com.br/especiais/virus-vida-e-obra-do-mais-intrigante-dos-seres/ (visitado em 21 de março de 2020).
4-Bryson, Bill. Breve história de quase tudo. São Paulo: Companhia das letras, 2005, p. 308.
5-http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302002000400045 (visitado em 28 de março de 2020).
6-https://psicologado.com.br/neuropsicologia/as-bases-biologicas-do-medo-uma-revisao-sistematica-da-literatura – (visitado em 21 de março de 2020).
7-EAGLEMAN, David. Cérebro: uma biografia. Rio de Janeiro: Rocco digital, 2017, posição 308.

8 comentários em “Coronavírus e o medo humano”

  1. Muito bom o texto! Sobretudo as questões: Que tipo de vida estamos vivendo?

    O que o coronavírus levará consigo se ele nos alcançar? Se ele me alcançar?

    Um vírus é um motor replicante. E eu? Que sou?

  2. Juliane Isper Campos

    Parabéns Lucas muito bom, me faz refletir qual o sentido da vida e o que posso fazer diante de mecanismos tão preciso e automáticos?

  3. Cleyber Luciano Vieira

    Artigo muito bem escrito e descrito.
    Provavelmente as respostas às perguntas, deixadas adequadamente ao cunho individual, já estejam abordadas nos riquíssimos arquivos mantidos pelo Sistema Tempo de Ser, porém deixo a sugestão para que continuemos esmiuçando juntos os assuntos a que nos estimula a meditar.

    Forte abraço virtual e até mais ver.

    1. Excelente síntese de organização de fatos evolutivos e de nossa interação com o todo! Além da essencialidade da questão conclusiva: “Que tipo de vida estou vivendo?” A partir de uma resposta para esta, fez-me pensar em mais uma questão: que tipo de vida quero viver?
      Parabéns pelo texto e gratidão por compartilhar!

  4. Muito bom o artigo.
    Parabéns.
    Claro e objetivo. E faz refletir, o vírus irá passar, com ele o que irá de mim e da minha vida.
    Ao mesmo tempo, com a passagem da pandemia e da quarentena, o que aprendi de mim, quais são minhas reais prioridades, enfim, posso repensar a vida que sou e como pretendo seguir.

    1. Excelente síntese de organização de fatos evolutivos e de nossa interação com o todo! Além da essencialidade da questão conclusiva: “Que tipo de vida estou vivendo?” A partir de uma resposta para esta, fez-me pensar em mais uma questão: que tipo de vida quero viver?

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