Uma Reflexão Sobre o (Des)interesse por nossa história

Uma Reflexão Sobre o (Des)interesse por nossa história

É possível que, hoje, você tenha acordado com um certo sentimento de nostalgia que não é comum nas manhãs ou talvez não tenha percebido. Talvez tenha sentido o aroma de um café que arremessou você ao passado, através de lembranças, com pessoas importantes, como pais, avós ou amigos. Também, é possível que tenha acordado sentido-se com um leve aborrecimento ou um profundo desagrado embora não saiba explicar o que ocorreu. Um sonho talvez? Uma preocupação não identificada, quem sabe?

Você já percebeu que nós somos arremessados para o passado, muitas vezes durante o dia, a depender de muitos estímulos de ambientes, convivência com pessoas, cheiros, gostos, toques? Visto desse modo o mundo é a projeção de nossas memórias e um modo de acessá-las dentro de nós. Desse modo é possível concluir que a importância de manter ambientes, relacionamentos e objetos organizados que retratem a nossa história é mais do que uma mera organização de objetos para as próximas gerações, é manter o direito de conhecer a nós mesmos como espécie, sociedade, cultura, como indivíduos.

A história é, de certo modo, uma ciência humana que estuda o desenvolvimento do homem no tempo. Assim, imaginar um homem pré-histórico rabiscando, nas paredes das cavernas, as primeiras formas de animais que ele observou nos ambientes primitivos que fez parte, é vislumbrar um comportamento que foi repetido, por nós mesmos, no período infantil. Ora, a pré-história humana foi a infância da humanidade.

Contemplar a descrição de fatos revolucionários de nossa história, é suscitar na intimidade lembranças de nossa própria revolta contra tudo aquilo que despertamos com olhar crítico. É, de certo modo, um voltar-se ao período de nossa adolescência para sentir um período fundamental onde iniciamos a experiência de estar no mundo, por nós mesmos, dando ao mundo a expressão de  sentimentos, emoções e pensamentos ressignificados com base na herança de nossos antepassados.

Emocionar-se com uma bela escultura ou pintura é sentirmos, mesmo sem consciência das razões da emoção, uma profunda conexão com a nossa própria história. É uma forma de viajarmos no tempo e espaço de nossas memórias para nos reencontrarmos com um instante tão precioso.

Ora, então por que desvalorizamos as evidências de nossa história? Qual o significado mais profundo do incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que resultou na perda de inúmeros objetos valiosos de nossa memória, como brasileiros, como humanidade? Se as memórias dão base para a compreensão de tudo o que somos, sentimos e pensamos, a extinção de boa parte de nossa história, naquele museu, é um sinal de profundo desinteresse por nós mesmos? Se sim, qual a razão do desinteresse?

Onde há desinteresse não há valorização. Onde não há valorização, necessariamente, não há consciência do valor e, portanto, ignora-se a necessidade e função de nossa história. Vamos considerar isso em uma dimensão subjetiva? Onde não há interesse pela própria história não há autovalor, portanto desconhecemos a necessidade e função de nossa própria existência, de quem somos e o que somos.

Se, como já escrevi acima, a história é esse olhar para o desenvolvimento do homem no tempo, como compreender a si mesmo em todos os períodos que constituem a nossa formação como seres humanos, como pessoas? E se tudo o que vivemos repercute no presente, em nossos sentimentos, emoções, comportamentos, forma de olhar para mundo e se relacionar com ele, então é necessário concluir que somos desconhecidos atravessando a linha de nossa história, com vendas nos olhos, até o instante de nossa morte.

Por que o desinteresse pela nossa história? É provável que não tenhamos enxergado que algo é valorizado por nós quando há uma correlação entre o mundo que vivemos e o mundo que sentimos, entre o exterior e o interior. E essa correlação ou conexão de sentido e significado não se elabora com uma educação constituída para apenas informar e conhecer o mundo, há necessidade de uma educação que estimule no indivíduo um potencial sensível e inteligente que o permita debruçar-se sobre sua própria história, em um processo de conhecimento de si ou autoconhecimento.

Nessa forma de olhar para a história, como algo que possui uma correlação de conexão entre o exterior e o interior, de uma educação para o autoconhecimento, permite concluir que conhecer a história da humanidade é um modo de conhecer a si mesmo, tanto quanto conhecer a própria história é um modo de compreender a humanidade. E que tipo de seres humanos seremos se aprendermos a valorizar nossa história? Com qual profundidade e valor viveremos na dimensão de nossa própria história?

Por Fabiano Fidelis de Souza – Educador de Essencialidades do Sistema Tempo de Ser

2018-09-05T22:49:29+00:00 05/09/2018 |Autoconhecimento, Núcleo de Birigui|2 Comentários

2 Comentários

  1. Luiz 05/09/2018 em 4:47 pm - Responder

    Fabiano, excelente e sensível texto, aproveitando um episódio atual para estimular comparativo do interesse pela história com interesse por se conhecer.

  2. Carlos Roberto de Moraes 01/10/2018 em 5:06 pm - Responder

    Fabiano foi feliz em seu texto.

Deixar Um Comentário Cancelar resposta

Power by

Download Free AZ | Free Wordpress Themes