Quem anseia a solidão?

Quem anseia a solidão?

“Pouco a pouco fui vendo mais claramente o defeito mais difundido de nossa maneira de ensinar e de educar. Ninguém aprende, ninguém aspira, ninguém ensina — a suportar a solidão.” (Nietzsche) [2]

Uma brisa toca-nos a face no final da tarde. Por um momento não há ninguém senão nossa própria sombra projetando-se no chão, acompanhando-nos os passos e imitando-nos os gestos de um fim de dia. Estamos diante da paisagem bucólica ou urbana – não importa! – encarando uma parte da vida lá fora, mas um olhar invisível e indefinível começa a convidar a nossa atenção para o horizonte da intimidade. Há silêncio no vasto abismo que rasga-nos por dentro revelando a solidão.

Não suportamos a companhia da solidão, não a solidão das distrações, mas a solidão de nossa presença. Sim, a solidão é uma presença. Ao contrário do que nossos dicionários a significam – estado de quem se acha desacompanhado, isolado, solitário – a solidão é um estado de presença onde Eu sinto a minha própria companhia – eis o motivo do insuportável, pois quem suporta um desconhecido? Porém desconhecimento não significa ausência do desconhecido.

Desde o nascimento somos criados para não suportarmos a ausência um único instante. Na infância, entre gritos e choros, impomos o desejo de atenção materna a partir de breve ou longa ausência dela. Sentimos as frustrações de estarmos sozinhos e imediatamente somos podados pelo abraço afetivo de uma mãe que também desconhece o benefício da dor de desejos não saciados. E assim, embora seja um fato simples do cotidiano entre mãe e filho, fica bem perceptível, nessa relação fundamental, constituir-se intolerância a ausência, a solidão.

Nossa presença existe em função do outro, não de nossa própria, sinal disso é que somos animais sociais, verdadeiros corpos coletivos em busca de convivência para sentir a segurança de qualquer presença – sejam amigos, animais, objetos, coisas – que faça-nos sentir um pouco de nossa própria presença.

Escreve Nietzsche em sua obra Aurora que “ninguém aprende, ninguém aspira, ninguém ensina — a suportar a solidão[2]”, pois a solidão é esse momento em que estamos exatamente no centro da maior questão humana: o que sou? E para essa questão nem sempre olhamos com a disposição de quem encara o abismo silencioso e ausente de respostas. Nele, no abismo, preferimos projetar monstros enchendo-o de todas as desatenções e distrações.

Mas ai de nós! Que tentamos enfrentá-los com a fúria e coragem do medo que sentimos, pois “quem deve enfrentar monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti[3].” – adverte-nos Nietzsche. Eis a solidão da presença, esse estado de sentir, não de isolamento mas, de nossa presença estranha, desconhecida, não compreendida.

A grandeza da solidão, nesse caso, consiste em aprender a sentir e a conviver com a própria companhia. De apreciar cada traço de nossa existência, de nossas incógnitas, incertezas, medos, desesperos, vergonhas, constrangimentos, estranhezas e, sobretudo, o desconhecido.

Mas o preço de sentir a solidão da presença é exigente em vista do desafio de encararmos a solidão e o que nele há. Eis o convite oferecido pelo pensamento de Nietzsche em Ecce Homo para uma filosofia da solidão: “O gelo está próximo, a solidão é monstruosa — mas quão tranquilas banham-se as coisas na luz! Com que liberdade se respira! Quantas coisas sente-se abaixo de si! — filosofia, tal como até agora a entendi e vivi, é a vida voluntária no gelo e nos cumes — a busca de tudo o que é estranho e questionável no existir, de tudo o que a moral até agora baniu[4].”

Por Fabiano Fidelis de Souza – Educador de Essencialidades do Sistema Tempo de Ser

Referências:

[2] NIETZSCHE, Friedrich. Aurora. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

[4] NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

2018-11-07T23:11:51+00:00 07/11/2018 |Autoconhecimento, Núcleo de Maringá|4 Comentários

4 Comentários

  1. Juliane Isper Campos 09/11/2018 em 9:32 am - Responder

    Parabéns Fabiano, muito boa reflexão.

  2. Tayná 11/11/2018 em 5:21 pm - Responder

    Muito bom o texto. Ótima reflexão, em tempos de tão rasos preenchimentos de vida e de tempo.

  3. TEREZINHADULCE DOS SANTOS SILVA 26/11/2018 em 11:51 am - Responder

    A solidão… Um ” ente” desconhecido que tão avidamente quis banir!
    Ah! esse Tempo de Ser… maravilhoso! Tempo de solidão!!!

  4. Carlos R. de Moraes 26/11/2018 em 2:13 pm - Responder

    Texto fabuloso, parabéns Fabiano.

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