O medo do homem é o homem do medo

Tente lembrar-se, com cuidado, do seu instante mais aterrador. Faça uma varredura em suas memórias factuais e afetivas e identifique os seus maiores temores. Minha sugestão é que investigue períodos da infância, da puberdade ou da adolescência. Se você identificar um sentimento ou consciência de algum perigo então responda a si mesmo se há alguma correlação com um fato vivido com outro ser humano ou com sua própria humanidade.

Sentimos medo da agressão do outro, de agredir o outro, de perder alguém, de perder-se de alguém, de morrer ou morrer sozinho, de viver ou viver sozinho, de ousar, perder ou ganhar, ser traído, de ser descoberto na traição, rejeitado por alguém, de ser autêntico na convivência com outros. Temos medo de admitir o que sentimos, tememos nossos corpos, as partes de nossos corpos, sobretudo as partes mais erógenas que suscitam nosso imaginário para as fantasias proibidas. Temos medo do que desejamos com nossos corpos – sinal disso é a nossa necessidade de mudarmos a todo instante, seja a si mesmo, seja ao outro.

O medo é um dos sentimentos mais primitivos de nossa humanidade. A história de nossa espécie demonstrou que o medo favoreceu nossa autoconservação. A consciência do perigo aperfeiçoou-nos a capacidade de nos mobilizarmos para lutar ou fugir; de enfrentarmos os perigos; de superarmos a ignorância quanto aos fenômenos estranhos da natureza, tornando-os conhecidos.

O medo fundamentou a organização social e cultural de nossa espécie. Comportamentos adequados para comportamentos inadequados, casas com portas e fechaduras contra um inimigo iminente. Muros, grades, segurança, justiça para prevenir-nos de uma possível necessidade de defesa, saúde para combatermos as doenças que assolam nossos corpos, educação para formar indivíduos mais sociáveis, ciências para lidarmos com fenômenos desconhecidos que assolam nossa intimidade e ameaçam precipitar-nos ao pavor da irracionalidade.

O homem sente medo porque é o homem do temor pelo desconhecido. E seu temor consiste, sobretudo, em temer a própria espécie, em sentir medo de si mesmo. E se considerarmos a função desse sentimento (o medo), que é apontar na direção de um grande perigo, o homem é sentido como o maior perigo para si mesmo, exatamente porque o medo do homem é criador do homem do medo.

Ora, o que é o homem do medo? – É um negador de sua própria humanidade, e a negação é uma tentativa de reprimir, alterar ou extinguir sua condição humana em si mesmo e no outro. E a negação é sempre o sintoma de nosso desconhecimento a respeito da necessidade, função e sentido de nossa humanidade.

Nós, afirma-nos Nietzsche em Genealogia da Moral,

“homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos – e não sem motivo. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que nos encontrássemos? [1]”

A negação do homem evidencia o desconhecimento sobre nós mesmos. E se não nos procuramos, como quem mergulha dentro de si devassando o próprio medo, certamente jamais conheceremos nossa humanidade em toda a sua fragilidade, animalidade e potencialidade.

Só há uma direção para apontar, meus amigos, o outro? – Só se o outro for encarado como um grande espelho de nossa humanidade. Ou ainda continuaremos como alguém a permanecer olhando para o abismo do outro sem encarar o próprio? Perigosa posição que nos adverte o filósofo alemão –

“quem deve enfrentar monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti [2]”.

E se encararmos o próprio abismo, o que encontraremos? O grande temor? E o que mais contemplaríamos em nossa grande dor e temor senão uma humanidade que em nós sussurra com medo: – Dá-me um sentido digno para que eu seja tua grande virtude.

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[1] NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

[2] NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Por Fabiano Fidelis de Souza – Educador de Essencialidades do Sistema Tempo de Ser

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