O interesse por minha história – o querer ir além do que me contaram

logo_pts_600x600Era madrugada, disseram que nasceu cabeluda.

Já tinha nome escolhido, seria mais uma Amélia na família, mas disseram que o pai, no momento em que olhou para ela, falou que tinha “cara de Paula”.

Reinou, disseram que foi muito paparicada por ser a primeira neta do lado materno, e por ser a primeira do filho caçula do lado paterno – a baianinha do pai.

Antes de completar o segundo ano, disseram que chegou uma irmãzinha para dividir, brincar com ela, fazer companhia. Alguns dias depois, disseram que a irmãzinha ficou engasgada com um amendoim dado pela mais velha. “Queria matar sua irmã?!”

Ensinaram desde pequena: irmã mais velha tem que cuidar, tem que ensinar como fazer, tem que dividir e emprestar, tem que ser exemplo. Disseram que cresceu sendo exemplo: “nunca apanhou, era quietinha…”

Disseram que gostava de estudar, sempre boas notas. Não falava muito, e quando falava a voz saía em tom baixo. Disseram que gostava de música, começou a cantar e fazer aulas desde cedo. Terminou o curso e foi indicada a dar aulas para iniciantes.

Aprendeu o que deveria na evangelização religiosa, disseram que tinha aptidão e foi indicada a evangelizar outras crianças.  Cresceu e ingressou no grupo de coordenação de encontros de jovens.

Na adolescência, fim de ensino médio, disseram que tinha aptidão e foi indicada a realizar um vestibular num programa de formação de professores da  universidade estadual, no qual passou para o curso de Filosofia. Já estudante, disseram que tinha aptidão nos testes de canto coral e foi indicada a um grupo seleto de canto com integrantes do coral da faculdade.

Voltando da faculdade para morar com a mãe, retomou as atividades de evangelização e coordenação de grupos, agora não só de jovens. Depois de um tempo, foi indicada a coordenar o grupo, então chamado Núcleo Aprendizes do Amor. Disseram que foi pelas aptidões.

E assim, de aptidão em aptidão, está seguindo a existência. Se nunca parasse para pensar, poderia sempre acreditar que sabia muito, que nasceu com alguns dons, que é muito inteligente e desenvolveu tudo o que poderia. Seria feliz e realizada em família, no emprego, religiosamente, boa mãe e amiga de todos.

Mas, esperem um segundo! Agora, juntando fotos, entrevistas e lembranças, parece que nossa personagem tem outra história. Nem sempre sentiu que tinha estas aptidões todas, está confusa se já gostou de escola e de música. E será que foi sempre um exemplo? Vamos voltar ao início e ver este crescimento por um outro ângulo – o de dentro…

A história desta personagem começa, na verdade, com a história da mãe dela. Era filha mais velha, nasceu e foi criada no sítio onde os pais trabalhavam. Aprendeu o que uma mocinha deveria aprender, o que era “certo e errado”, cuidar dos irmãos mais novos, cuidar da casa, estudar. Cresceu e morou ali até o ponto em que a escola já não tinha continuidade de estudos a oferecer. Precisou mudar-se para a cidade para continuar estudando. Formou-se auxiliar de enfermagem, namorou, casou, construiu casa própria. O marido tocava em uma banda, e mesmo após o casamento continuou com suas apresentações. A sogra, avó paterna de nossa personagem, que estava ficando doente, acabou indo morar junto. Pouco depois do casamento, a mãe engravidou, tendo a primeira filha. Dividiu as atenções entre a filha recém-nascida e os cuidados com a sogra doente, até que esta faleceu quando a nossa personagem tinha por volta de 11 meses.

Mas a morte da avó paterna não fez com que as atenções se voltassem para a pequena. A mãe ficou grávida novamente, e a irmã mais nova chegou quando a mais velha completou 1 ano e 10 meses.

Para o seu sentir, não houve um acréscimo na chegada da irmã. Houve a confirmação da rejeição. Não teria a atenção para si, principalmente a atenção materna, que ficaria voltada para suprir aquele corpo ainda mais frágil.

A personagem desde então fez o que sentia que deveria fazer. Desenvolveu um comportamento que a mantivesse no conforto e segurança, estável, sem “surpresas”. Ficar quietinha, sem fazer bagunça, sem reclamar, aprender rápido.

Na escola tirar boas notas afastaria o risco de ser chamada à atenção. E ainda faria com que seus pais se orgulhassem. Entrar para o coral e começar aulas de música. Coordenar evangelização de crianças e jovens. Estudar bastante e passar no vestibular.

Parecia uma vida brilhante. Se não fossem os sentimentos de insatisfação e inadequação constantes. Se gostasse mesmo daquela faculdade, por que teria desistido? Se gostasse mesmo de música, por que não continuaria cantando e tocando? Se realmente fosse seu este gostar, não teria motivos para  querer parar a todo instante com a coordenação de grupos de estudo, assim como está sentindo agora.

Esta existência foi uma construção com os pedaços de cada um que esteve com ela desde a infância. Copiou o que imaginou que seria mais útil para garantir sua sobrevivência emocional. Sem choro, sem reclamação, só fazer.

Garantiu emprego “estável”, relacionamento “estável”, mas ainda carrega toda memória emocional de ter crescido evitando sentir a dor da rejeição. É a inabilidade própria de lidar com as emoções e sentimentos. É prisioneira do que foi constituído com as percepções da infância. É como a maioria dos seres humanos.

Entretanto, agora houve um olhar, ela escutou os passos de uma criança se escondendo nos labirintos de memória e crenças. Agora já não vai mais dormir como se fosse indiferente ao que sente. Vai precisar olhar cada linha daquela história contada. E ver se há parágrafos sendo repetidos na educação de sua filha. Mas aí, já são palavras para uma nova história…

Paula


Contos e Autoencontros

A não compreensão e entendimento do mundo interior levam-nos à busca de efetivar meios de auto-observação, para que fiquem visíveis atitudes e sentimentos que nos movimentam. Um dos meios para observarmos nossas movimentações é a descrição do nosso percurso como educador de essencialidades. O texto publicado anteriormente é uma autodescrição resultante de um projeto elaborado pelos Educadores de Essencialidades do Núcleo de Aprendizagem de Birigui do Sistema Tempo de Ser, dentro da atividade do grupo vespertino de Prática de Inteligência Mediúnica. O projeto tem como proposta a exposição ao meio social das repercussões dos estímulos de autoaprendizagem aos educadores de essencialidades nos ambientes do Sistema Tempo de Ser. Durante sua execução, tem sido considerado que o “autoencontro” pode ocorrer a partir da auto-observação e autodescrição dos “Contos” (história imaginada) que permeiam a existência humana.

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