Dimensões da vida a dois: com quem me relaciono

Dimensões da vida a dois: com quem me relaciono

Você considera ser um desafio relacionar-se? Nós consideramos tão desafiador quanto consideramos um enigma o que sejamos em essência. Com vontade de compreender qual a necessidade e funcionalidade da existência humana, surge, dentro deste assunto, o desejo de compreender por quais motivos sinto que preciso relacionar-me. Enfim, por que motivo preciso e estou me relacionando com determinada pessoa, e o que me faz querer ficar perto dela?

O que vejo no outro que me chama atenção? Como tem sido a relação a dois? O que me faz manter o relacionamento em que me encontro atualmente? Depois de um tempo de convivência, por que podemos tornar-nos estranhos? Estas e tantas outras questões podem passar pelos pensamentos de quem tem a mínima curiosidade em compreender os desafios de se relacionar e, principalmente, manter um relacionamento.

Vamos refletir sobre as dimensões do relacionamento na vida de dois seres humanos com foco na união de casal (casamento, namoro), mas algumas informações podem ser utilizadas na construção do conhecimento sobre qualquer tipo de relacionamento (amizade, irmãos, pais e filhos etc.). A proposta desta reflexão é buscar entendimento para o período que compreende a existência de dois indivíduos que se relacionam.

Observando “Um” Ser Humano

A Educação de Essencialidades considera o ser humano um ser trino, com as dimensões psíquica, psicológica e fisiológica, sendo a dimensão psíquica a mais próxima do ser em si (psique), com seu caráter inconsciente quanto à sua natureza essencial (inconsciente de si mesma). O que nomeamos de psique ou inteligência corresponde à vida interior – invisível (não tangível, mas sentida) – que também é conhecida como alma, espírito, dentre outros conceitos.

Com isso, a psique não pode ser visualizada de maneira direta, mas por suas manifestações: psicológica (comportamentos) e fisiológica (corpo). Portanto, consideramos que o ser humano é por onde a psique se manifesta, ou seja, ele é o seu método para chegar-se a si. Dentro deste método, na busca por si mesmo, é que vamos refletir sobre o ser humano e a necessidade dos relacionamentos.

Além de considerarmos as dimensões do ser humano e suas manifestações, precisamos debruçar-nos no entendimento de seu processo de formação para compreendermos seu funcionamento na atualidade, ou seja, conhecer como fomos formados para compreendermos como nós, seres humanos, nos manifestamos em nossa existência atualmente.

A formação do ser humano compreende as seguintes fases: primeira infância (constituição neurológica), segunda infância (assimilação, processamento e reforço da fase anterior), puberdade (transição infância-adolescência, com transformações e perdas) e adolescência (em busca de autonomia). As primeiras experiências de existência desempenham papel fundamental no desenvolvimento da personalidade e influenciam o comportamento por toda a vida, por isso é importante que consideremos tudo o que experimentamos nas fases de formação do ser humano, principalmente na primeira infância, para compreendermos nossas escolhas na fase adulta.

Desde o nascimento, o ser humano é movido pela busca de si mesmo, mas como não tem consciência deste processo, este desejo de sentir-se é transferido para o que é externo a si. Até a puberdade este desejo de sentir-se é manifestado pela busca de sobrevivência fisiológica e psicológica, nutrição e afeto, respectivamente, que os pais e/ou cuidadores conseguem suprir.

A partir da adolescência, com as dimensões fisiológica (corpo) e psicológica (personalidade) formadas, além da busca por nutrição e afeto, o desejo do ser em sentir-se tem foco de manifestação nos órgãos genitais no âmbito da reprodução. Contudo, de acordo com nossos conceitos herdados, somados à necessidade desta fase por busca de autonomia, os pais e/ou cuidadores não serão mais capazes de suprir todas as necessidades, o que faz com que a busca de satisfação do desejo seja direcionada a outras pessoas. Considerando que o ser humano pauta suas escolhas nas referências que tem do período de formação, principalmente da primeira infância, estas “outras pessoas”, invariavelmente, terão relação com as primeiras experiências infantis do indivíduo.

Considerando “Dois” Seres Humanos

Com as informações anteriores sobre “um” Ser Humano, podemos, então, organizá-las para refletir sobre as dimensões da vida a “dois” em que cada dimensão – fisiológica, psicológica e psíquica – de um encontra na dimensão do outro algo que lhe falta para cumprimento de algum objetivo.

Desde o nascimento do ser humano, a movimentação e materialização do sentir ocorre da essência (psique) intangível para as manifestações tangíveis, ou seja, da área psíquica (mais próxima do ser em si) para a psicológica e fisiológica. Com isso, podemos considerar que a busca por completude em outra pessoa tem relação com a inconsciência da psique que somos, partindo da dimensão mais invisível, que é a psíquica, e materializando-se nas dimensões tangíveis – psicológica e fisiológica, sempre com referências nas vivências do ser em seu período infantil.

A partir de todas essas considerações, podemos perceber que em nossos relacionamentos, dentre eles o de casal, há a presença de uma, ou melhor, de duas psiques ainda inconscientes de si na busca por si mesmas. Desta forma, a busca acontece para que eu – psique – (como essência) me encontre; pois, como sou inconsciente de mim, preciso do outro para reconhecer-me. Neste caso, o outro torna-se um “espelho” onde vejo apenas as minhas referências refletidas. Enquanto essências inconscientes de si, serão duas individualidades relacionando-se com o que veem no outro de suas próprias referências infantis.

Um olhar além: vendo o “dois” a partir do “um”

Como posso considerar que o outro é um “espelho” em que vejo apenas as referências que compõem minha história? Apenas um olhar voltado para mim mesmo, para meus sentimentos e meus comportamentos como, por exemplo, responsabilizar-me por minhas ações e não ficar apenas atribuindo ao outro as consequências de atitudes e sentires que partiram de mim. Este olhar para si que faz parte do processo de autoconhecimento em que, para a educação de essencialidades, o ser humano é um método para que eu, como psique inconsciente, tenha consciência do que sou.

Portanto, para relacionar-me realmente com o outro preciso antes relacionar-me comigo mesmo a partir do autoconhecimento e autoaceitação do ser humano que sou. Ao admitir meu estado de ignorância – do que realmente sou -, perceber a necessidade de aprender como me manifesto, sobre minha história e sobre minhas referências infantis nas quais são pautadas as escolhas que faço atualmente, poderei considerar o outro como um ser tão inconsciente e tão humano como eu.

Com tudo isso, poderei utilizar os relacionamentos como mais uma ferramenta dentro do método “ser humano” para chegar a saber o que sou, não apenas para buscar no outro a completude para a ausência que sinto de mim mesmo a partir de projeções baseadas em minhas referências, que acredito ser a única realidade. O outro não poderá suprir a minha sensação de carência pelo eu que sou, como psique, ser ainda inconsciente de mim, mas pode ser um método para que eu consiga, com resiliência e empatia, chegar a satisfazer o desejo que sempre tive de encontrar-me.

Como esta reflexão e todo o desafio de autoaprendizagem não terminam aqui, finalizaremos com a questão para a continuidade:

Afinal, com quem estou me relacionando no momento?

Por: Daniene Tesoni Cassavara Ribeiro e Maurício Rogério Ribeiro de Jesus – Educadores de Essencialidades do Sistema Tempo de Ser

2018-07-17T11:29:33+00:00 04/07/2018 |Autoconhecimento, Núcleo de Birigui|2 Comentários

2 Comentários

  1. Lucas 23/07/2018 em 11:05 am - Responder

    Parabéns ao casal de autores pelo excelente conteúdo, que me levou a refletir no assunto. O relacionamento é algo complexo e em geral, acaba-se por atribuir esta complexidade aos efeitos, que são os fatos do dia-adia. Lendo vocês, fica mais claro que as circunstâncias de um relacionamento estão pautadas pela história de cada um, e que cada situação é apenas uma folha, de uma biblioteca inteira, da história de cada parte de uma relação. Obrigado!

  2. Carlos R. de Moraes 28/08/2018 em 11:07 am - Responder

    Bem bolado esse conteúdo, parabéns aos dois.

Deixar Um Comentário

Power by

Download Free AZ | Free Wordpress Themes