A carência da modernidade líquida conectada ou o encontro epistemológico** do eu?

MarcusÉ uma honra poder compartilhar minhas ideias com vocês (comunidade do Sistema Tempo de Ser). Fico extremamente feliz por saber que minha perspectiva converge com a proposta do Tempo de Ser. A contribuição que tem em minha vida é muito significativa. Admiro muito o trabalho de vocês e saibam que são brilhantes.

 Um saudoso abraço,

Marcus Campesato Godoy*

 

 A carência da modernidade líquida conectada ou o encontro epistemológico** do eu?

“Na modernidade líquida, as movimentações são notadamente intensas, solitárias e frágeis. Num primeiro momento nos deparamos com tal conjuntura que parece ser paradoxal, mas representa um eixo interligado que une o indivíduo com a coletividade contemporânea.

Pode-se observar o elevado grau de intensidade com que a exposição da vida humana alcança na busca desmedida pelo reconhecimento. A falsa impressão de que estar desconectado é estar excluído torna-se impensável se a individualidade se encontra inserida nesse turbilhão de informações vazias de conteúdo existente nas redes sociais. No mundo líquido, o binômio fuga e reconhecimento andam de mãos dadas.

Simplória e cômoda movimentação a de ser mais um conectado e supostamente popular, reconhecido pela sociedade virtual. O medo de ficar à margem da sociedade cibernética fomenta o taylorismo*** ou seja, a incansável busca pela obtenção de uma tecnologia moderna, que possibilitará uma ilusória socialização e onipresença.

Receamos olhar para nossa individualidade e imprimimos uma movimentação coletiva. Nem sequer nos vemos nessa situação, pois como diria o filósofo utilitarista Jeremy Bentham: O ser humano busca o prazer e foge da dor, mergulhado no turbilhão de compartilhamentos e vazio existencial, imersos nessa infrutífera estrada virtual.

Faz sentido inserir nesse contexto a ideia utilitarista de se trocar mensagens com o objetivo de utilizar o outro como um meio de ser supostamente visto por todos. A ideia de se fazer amizades virtuais, seja no Facebook ou Instagram com o oco propósito de obter likes e sentir-se reconhecido. Diferentemente do que nos ensinou o brilhante filósofo Kant ao tratar da fundamentação da metafísica dos costumes afirmando: age de tal maneira que tomes a humanidade, tanto em tua pessoa, quanto na pessoa de qualquer outro, sempre ao mesmo tempo como fim, nunca meramente como meio. No mundo líquido, Kant é totalmente contrariado e a opção socialmente aceita é pela superficial lógica consequencialista utilitária.

O brilhante filósofo Aristóteles abre caminho para uma nova perspectiva, afirmando o seguinte: (…) o homem é naturalmente um animal político destinado a viver em sociedade. Aquele que por instinto – e não porque qualquer circunstância o inibe – deixa de fazer parte de uma cidade, é um ser desprezível ou superior ao homem.

Essa proposta, escrita em 322 a.C. pode suscitar a ideia de que é da natureza humana viver integrado na contemporânea sociedade conectada. Por outro lado, se rechaçar tal postura, estaremos sujeitos ao indesejável afastamento desse mesmo grupo.

A quantidade de amigos, grupos do WhatsApp, likes ou comentários no perfil da rede social é a prioridade. Na medida em que a excessiva exposição da imagem acontece, o amigo virtual reconhece e o admira. Consequentemente, há uma falsa atribuição ao ganho social que esse recebe, quando na prática, o ganho é nulo e a interação real é escassa.

A movimentação a fim de alcançar uma utópica realidade virtual se sobrepõe à realidade real. A modernidade líquida também é um período de escassa cultura, ou seja, vivemos uma era de incertezas em que a criatividade é restrita e a imitação da cultura lançada no mundo sólido se reproduz ou, como diriam os egípcios, seguimos uma concepção cíclica de tempo.

No mundo líquido, nada serve para durar.

As redes sociais se tornaram um canal de comunicação pobre, produto do despejo de rancores e frustrações. Excesso de sentimentalismo sem qualquer tipo de critério, haja vista aplicativos para os “apaixonados”, como Tinder, POF, Happn, dentre outros. Nessas plataformas, a meta é “ficar”. O público conectado orgulha-se pela irrelevante quantidade de “ficantes”. No mundo líquido, nada serve para durar. Perde-se conteúdo e acumulam-se números, que por si só não têm nenhuma representatividade. Compartilham-se informações imprecisas e por vezes falsas, a fim de se obter uma transitória “ficada” ou uma mera noite de sexo. Ou melhor, como diziam os funkeiros: só uma “pentada”.

Quem nunca ouviu a expressão: Solteiro sim, sozinho nunca? De forma sucinta, ela representa a fugacidade do amor nos tempos de modernidade líquida, seja ela on-line ou off-line. É como se o sujeito estivesse em um trem e cada estação representasse uma parceira diferente. Fica evidenciada a intermitência dos vínculos humanos na modernidade líquida.

Ao chegar à última estação, qual será o real triunfo desse viajante? A ruptura pragmática da essência humana, potencializada pelos aplicativos, nos gera um sentimento de que a infidelidade não choca mais. Teriam a traição virtual e real se tornado uma diretriz e uma virtude circunstancial?

A valoração do momento em si, a troca de olhares, o abraço apertado, a magia do cheiro, da conquista, do toque e a sublime sensação de ser a razão do sorriso de alguém, se tornaram ultrapassados. O momento off-line em si está desprovido de representatividade e tornou-se insignificante.

Há uma notória queda na qualidade cultural na era líquida, seja no âmbito musical, educacional e midiático. O compartilhamento de informação rasa do mundo líquido é um exemplo de digressão cultural em comparação com a riqueza de ideias do mundo sólido, vivido até o final do século XX.  Intensifica-se o individualismo e reduzem-se as trocas profundas de ideias ou de conhecimento. Fica evidente o paradoxal egoísmo do ser que se encontra off-line em consonância com a ilusória popularidade desse mesmo individuo on-line.

O filósofo escocês David Hume afirmava que nos preocupamos apenas com nosso limitado núcleo de seres afins, de modo que somente aqueles que têm a capacidade de nos entristecer nos sensibilizam direta e profundamente.

Adaptando a frase do escocês ao mundo líquido, eu ousaria dizer que nos sentimos profundamente chateados se algum amigo virtual não curtiu ou comentou uma foto “marcada”. Ah! Isso sim é que é um belo motivo para nos entristecer! A visibilidade nos dá alguma responsabilidade e o não reconhecimento cibernético gera uma tremenda frustração.

Estar consigo, fazer uma autogestão e aprender são momentos de raridade.

A fala reflexiva foi suprimida pela objetividade. O conteúdo sólido, a reflexão profunda e a enriquecedora troca de conhecimento foram substituídos pela dominação da fala objetiva, informativa e breve. Quantos kkkk, rsrsrs, blz e top caracterizaram o diálogo virtual? Diálogo ou vazio de conteúdo? Estar consigo, fazer uma autogestão e aprender são momentos de raridade.

Será que faz sentido buscar conhecimento, fazer um estudo verticalizado de si pari passu com a evolução do pensamento filosófico? Ou é mais cômodo obter a aprovação do grupo virtual, fofocar sobre a vida alheia e, no fundo, esconder o receio à solidão atrelado à perda da consciência de nós mesmos?

Instalado nessa mesma órbita de escassez está o Twitter. Tal plataforma limita o envio de apenas 140 caracteres entre seus usuários. Há um estímulo à rapidez na comunicação, acompanhada de uma controversa pobreza de conteúdo. Mais uma vez, limita-se a quantidade a fim de se evitar o aprofundamento cultural.

Ora, se o conteúdo perdeu valor, o objetivo é estar imerso na multidão conectada e em fuga de si. As redes sociais permitem que haja uma simultaneidade de ações, tanto do espelho que se quebra e da porta que se escancara. O estímulo do brilhante sociólogo polonês Zygmunt Bauman, criador do termo “mundo líquido”, permite que reconheçamos a preferência por ignorarmos nossos apetites ou inclinações e adotarmos a ilusória dominação do medo.

O filósofo e cientista político Leonidas Donskis observa que por trás da tendência de autorrevelação, fixada no sensacionalismo barato, escândalos políticos, reality shows e no largamente mencionado mundo virtual escasso, encontra-se o medo esmagador de desmoronar e de ser quem é.

O medo da desimportância, de desvanecer no ar sem deixar vestígios de visibilidade e presença. Isso acarreta numa temida não identidade ou até mesmo no fim da própria existência, no sentido de representatividade social do mundo cibernético. Tamanho é o hipnotismo virtual que os “antenados” acreditam piamente na segregação daqueles que optaram por não estar conectados. Muito embora a falsa impressão de onipresença virtual esconda o já mencionado mundo da ilusão.

São tantos aplicativos, plataformas digitais, sistemas e ferramentas modernas que a demanda exigida para que se possa estar 100% on-line nos consome considerável lapso temporal diário. São tantas ruas, vielas, trilhas e alamedas que desembocam numa única avenida, a da incerteza. Qual o caminho a ser seguido? Seria possível deixar de se envolver pelo mundo virtual a ponto de que ele não afete o mundo real?

O receio de estarmos sozinhos ou, como diria Nietzsche, com o vazio existencial gera uma enorme insegurança interna. Por sua vez, o magnífico poeta chileno Pablo Neruda diria: Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.

E você? Optou pela fuga da modernidade líquida ou pelo encontro epistemológico do eu?”

Marcus Campesato Godoy*, é filho da educadora Miriam Campesato, de Cabo Frio, frequentadora das aulas das “Fases Existenciais e o Educador de Essencialidades” do Sistema Tempo de Ser.

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** Epistemológico (adj.): Vem da palavra Epistemologia, que significa Teoria do Conhecimento; ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento; é o estudo sobre o conhecimento científico. Fonte: http://www.dicionarioinformal.com.br/epistemol%C3%B3gico/

 

***Taylorismo: Também conhecido como Administração Científica, o Taylorismo é um sistema de organização industrial criado pelo engenheiro mecânico e economista norte-americano Frederick Winslow Taylor, no final do século XIX. A principal característica deste sistema é a organização e divisão de tarefas dentro de uma empresa com o objetivo de obter o máximo de rendimento e eficiência com o mínimo de tempo e atividade. Fonte: http://www.suapesquisa.com/economia/taylorismo.htm

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